Época dos chatos; eles ocupam todos os lugares...
Como vivemos numa época que demanda rapidez em tudo, as pessoas tendem a considerar chato uma pessoa ou uma situação que toma nosso tempo em demasia. Repare, caro leitor, que a atual geração do videogame e do celular, acha chato ter que esperar. O jovem de nossa época acostumado a dominar o tempo e a velocidade do jogo eletrônico, se desespera quando se vê obrigado a viver o tempo, a velocidade e o espaço da realidade concreta. Por isso ler, para eles, é muito chato. Ler é uma atividade lenta, quase anti-social, exige trabalho de construção de compreensão, que, para essa geração mimada é uma coisa muito chata.
No universo da “modernidade líquida”[6] ou “pós-moderna”, uma pessoa – comumente idosa – mais lenta para comunicar alguma coisa ou para sacar dinheiro no banco é facilmente – e injustamente – estigmatizada como chata. Nossos jovens, cada vez mais, não toleram os mais velhos e os mais sábios. Um programa de tv do tipo “cabeça” é igualmente considerado chato pela assistência mediana e urbana habituada a conviver com o stress diário. Por outro lado, um público mais intelectualizado – e metido a besta – que orgulhosamente diz não assistir tv, não suporta os programas produzidos pela chamada “indústria cultural” bem ao gosto do povão, na linha dos programas de auditórios, novelas, de fofocas sobre as celebridades e policiais.
Surge também uma nova geração de mães estudadas, inseridas na competição do mercado globalizado, não obstante continuem desejando um filho como símbolo de auto-realização, não suportam as atividades maternais porque são repetitivas e por isso mesmo chatas, como dar comidinha, limpar bumbum, trocar fralda, etc; a desgraçada da criança é vista como estorvo para sua carreira profissional e, também, por que exige cuidados em demasia fora da vocação e da profissão. Suspeita-se que essa situação chata em que a educação falta, faz brotar uma geração de chatos, mandões, narcisistas, hedonistas, individualistas, e indiferente ao outro. Hoje em dia os professores são obrigados a conviver com alunos chatos que sequer usam um mínimo código de conduta em sala de aula. E, não me venham com essa de que falar de mínimo código conduta ou de polidez é tender para a ‘direita’[7]. Refiro-me ao respeito que se deve ter para com o outro, isto é, uma atitude que vem antes da denominada etiqueta social, ou das boas maneiras. Quem não acha chato um doutor desrespeitar a condição do ignorante ou usar do seu saber como poder? Quem não acha chato a atitude arrogante, intolerante, o ‘sabe tudo’?
Enfim, falta investigar as causas do aumento dos chatos e o aumento da variedade de chatices próprias de nossa época. A causa primeira estaria na nova geração de crianças mal educadas ou viria da nova geração de mães sem vocação?
domingo, 30 de março de 2008
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